Câmara e
Senado aprovaram nesta terça-feira (5) requerimentos para ouvir o ministro
Paulo Guedes (Economia) e o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto,
sobre a manutenção de offshores em paraísos fiscais. Na Câmara, como se trata
de uma convocação, o ministro é obrigado a comparecer. Ainda não há data.
A convocação
de Guedes foi aprovada pela Comissão de Trabalho, Administração e Serviço
Público a partir de requerimentos apresentados pelos deputados Kim Kataguiri
(DEM-SP) e Paulo Ramos (PDT-RJ). Eles querem que o ministro esclareça suas
movimentações financeiras no exterior através de offshore.
“Há indícios
graves de que Paulo Guedes manteve offshore em desacordo com o Código de
Conduta da Alta Administração Federal, além de ter atuado na reforma tributária
para retirar a tributação de offshores, o que configura, no mínimo, conflito de
interesse”, disse Kataguiri. “O ministro deve explicações à sociedade.”
Já no Senado,
a CAE (Comissão de Assuntos Econômicos) aprovou convite para Guedes e Campos
Neto. Por se tratar de convite, eles não são obrigados a comparecer, mas o
líder do governo na Casa, senador Fernando Bezerra (MDB-PE), afirmou que os
dois já se comprometeram a ir ao colegiado em 19 de outubro.
A existência
dos investimentos de Guedes e Campos Neto no exterior foi revelada neste
domingo (3) por veículos como a revista Piauí e o jornal El País, que
participam do projeto do Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos,
o ICIJ. Os documentos fazem parte da Pandora Papers, investigação sobre
paraísos fiscais promovida pelo consórcio.
Os
parlamentares querem que o ministro e o presidente do BC expliquem as razões e
as circunstâncias para manterem os investimentos. Eles também querem saber se
Guedes tem “outras empresas ou investimentos similares” em instituições
financeiras no exterior.
O requerimento
do senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE), argumenta que “diante das
flutuações do câmbio nos últimos anos, há de se apurar se não caracteriza
conflito de interesse por parte do Ministro da Economia a manutenção da
referida offshore com volume vultoso de aplicação em dólares, quando da
condução da política econômica do Brasil”.
O presidente
da CAE, Otto Alencar (PSD-BA), defendeu que Guedes explique ainda por que ele
defendeu excluir taxação de paraíso fiscal da proposta de reforma do Imposto de
Renda.
“O agravamento
maior da questão é inclusive esse projeto [de reforma do IR] que tramita na
CAE, quando foi retirado dessa reforma a tributação desses recursos em paraísos
fiscais. Isso agrava muito; por que não cobrar imposto de pessoas ricas,
milionárias, que aplicam em paraísos fiscais?”, perguntou Alencar.
Diante das
publicações, o procurador-geral da República, Augusto Aras, determinou nesta
segunda-feira (4) a instauração de uma apuração preliminar sobre as offshores
ligadas ao ministro e ao presidente do BC. O procedimento é chamado notícia de
fato.
Nesta fase,
como é de praxe, o chefe do Ministério Público Federal vai colher informações
sobre o caso, o que inclui um pedido de esclarecimentos a Guedes e a Campos
Neto.
A avaliação
sobre a eventual instauração de inquérito junto ao STF (Supremo Tribunal
Federal), onde ministros de Estado têm foro, ocorre somente em etapa posterior.
Em outra
frente, representantes da oposição ao governo do presidente Jair Bolsonaro
protocoloram pedidos de investigação no STF. As petições, como são chamados os
procedimentos, foram apresentadas pelo senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) e
pelo PDT.
O ministro
Dias Toffoli foi sorteado como relator.
O Ministério
da Economia afirma que “toda a atuação privada do Ministro Paulo Guedes,
anterior à investidura no cargo de ministro, foi devidamente declarada à
Receita Federal, Comissão de Ética Pública e aos demais órgãos competentes, o
que inclui a sua participação societária na empresa mencionada”.
Campos Neto,
por sua vez, diz que seu patrimônio foi construído com rendimentos ao longo de
22 anos de trabalho no mercado financeiro, inclusive com funções no exterior e
que não houve remessa de recursos às empresas após a nomeação para função
pública.
Folhapress
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