Líderes
partidários e do governo articulam acordo para que seja possível votar o novo
código eleitoral no Senado a tempo de valer para as eleições de 2022.
Para que isso
aconteça, o projeto tem que ser sancionado pelo presidente Jair Bolsonaro até o
início de outubro deste ano. Isso porque mudanças que afetam o processo
eleitoral precisam respeitar o princípio da anualidade, e o primeiro turno das
eleições ocorre no dia 2 de outubro de 2022.
O projeto, cujo
texto-base já foi aprovado, deve ter a sua votação concluída pela Câmara dos
Deputados nesta semana,
No Senado, a
tarefa é difícil. Alguns grupos resistem e avaliam que deve haver
“aperfeiçoamentos”, e não “grandes reformas” de última hora.
Um dos pontos
da tentativa de acordo é a Casa barrar a volta das coligações, tema que, desde
que foi aprovado pelos deputados, gerou críticas de ala de senadores.
A retomada das
coligações está dentro de uma PEC (Proposta de Emenda à Constituição) aprovada
pelos deputados em meados de agosto. A previsão é que seja analisada na CCJ
(Comissão de Constituição e Justiça) do Senado nesta quarta-feira (15).
O texto deve
passar na comissão, mesmo com a oposição pessoal já manifesta da relatora
Simone Tebet (MDB-MS). Ela ainda vai apresentar sua versão e diz que só deve
barrar a proposta se encontrar inconstitucionalidades. No entanto, a
expectativa é que o tema seja derrotado no plenário, onde deve ficar nítida a
resistência dos senadores —o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG),
avaliou a volta das coligações como “um retrocesso”.
Por outro
lado, para tentar agilizar a apreciação do novo código e seus cerca de 900
artigos, ficou acordado que os senadores Antonio Anastasia (PSD-MG), provável
relator, e Marcelo Castro (MDB-PI) vão apresentar a Pacheco até o fim desta
semana uma análise da proposta. A ideia é testar a viabilidade de votar na
próxima semana.
Pacheco vem
declarando publicamente que é contra mudanças eleitorais de última hora, ainda
mais em meio ao momento político conturbado atualmente. No entanto, também vem
afirmando a interlocutores que vai deixar a Casa fazer a discussão, decidindo
se há acordo para votá-la e aprová-la. Não vai tomar para si o ônus de não
colocar a medida em votação.
Líderes de
bancada afirmam que o texto da Câmara dos Deputados tem uma série de inovações
que podem melhorar não apenas o processo eleitoral, mas também as condições dos
partidos. Avaliam que a medida está madura também, tendo sido discutida desde
fevereiro na Casa legislativa vizinha.
Outros
parlamentares, no entanto, argumentam que uma proposta com 900 itens não pode
ser analisada a toque de caixa. Além disso, vem sendo recorrente a crítica
interna de que o Senado não pode ser um mero “carimbador” das decisões da
Câmara.
A ala que
defende uma decisão mais detalhada também argumenta que muitos dos 900 itens do
novo código eleitoral dizem respeito a partidos especificamente, e não
exclusivamente ao sistema eleitoral. Por isso poderiam entrar em vigor
imediatamente. Apenas as regras relativas às eleições ficariam para 2024.
Os deputados
ainda precisam concluir a votação do código, o que deve ocorrer nesta
terça-feira (14). Na quinta-feira, durante a apreciação de destaques —propostas
de modificação do texto principal—, a Câmara derrubou a proposta de estabelecer
uma quarentena eleitoral de cinco anos para juízes, integrantes do Ministério
Público, militares e policiais.
O código
revoga toda a legislação eleitoral ordinária, substituindo-a por um único
texto, com cerca de 900 artigos.
Entre as
modificações estão a censura a pesquisas eleitorais e a fragilização de normas
de transparência, fiscalização e punição de políticos e partidos por mau uso
das verbas públicas. Há ainda a proposta de manietar o poder da Justiça
Eleitoral de regulamentar as eleições.
Outro dos
pontos do projeto inclui no crime de fake news eleitoral pena de prisão para
quem divulgue falsas notícias com intuito, entre outros, de “atingir a
integridade dos processos de votação, apuração e totalização de votos, com a finalidade
de promover a desordem ou estimular a recusa social dos resultados eleitorais”.
A
descredibilização da urna eletrônica é uma das bandeiras do presidente Jair
Bolsonaro e de seus aliados.
Durante toda a
tramitação dos atuais projetos de reforma eleitoral e política, especialistas
apontaram retrocessos e açodamentos na discussão de mudanças tão profundas. Sob
liderança do Movimento Transparência Partidária, foi criada a campanha “Freio
na Reforma”.
O presidente
da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), nega atropelo na discussão e defende que os
temas foram bastante debatidos desde a criação do grupo de trabalho que se
debruçou sobre o assunto, em fevereiro deste ano.
Uma das
propostas que está perto de um acordo para ser votada a tempo de estar em vigor
nas próximas eleições é a que limita a partidos representativos concorrerem às
sobras de vagas das eleições para deputados e vereadores.
A medida, de
autoria do senador Carlos Fávaro (PSD-MT), acabou modificada pela Câmara dos
Deputados que agora prevê que essas vagas sejam destinadas para siglas que
alcançarem 80% do quociente eleitoral (número de votos válidos dividido pelo
total das cadeiras em disputa) e para candidatos que fizeram pelo menos 20% do
total do quociente.
Fávaro afirma
que há entendimento para que a nova proposta seja votada no Senado, a tempo de
ser sancionada pelo presidente Jair Bolsonaro.
Por outro
lado, o senador é um dos representantes do grupo que se mostra contrário a
mudanças mais radicais.
“O que o
Senado está procurando fazer é um aperfeiçoamento da legislação vigente. Não é
o momento de fazer grandes reformas, até porque o modelo está sendo testado com
[a entrada em vigor do] fim das coligações. O intuito do Senado é apresentar
melhorias e não radicalizar”, completa.
ENTENDA
AS MUDANÇAS ELEITORAIS E POLÍTICAS DEBATIDAS PELO CONGRESSO
1 –
CÓDIGO ELEITORAL
O
que é: Revogação de toda a legislação eleitoral
ordinária e consolidação das regras em um único código, com cerca de 900
artigos. Entre outros pontos, censura pesquisas, limita o poder de
regulamentação da Justiça Eleitoral e esvazia regras de transparência,
fiscalização e punição a partidos e candidatos
Estágio
de tramitação: Câmara deve concluir a votação nesta semana
Próximos passos: caso seja aprovado, projeto segue para
votação no Senado. Para valer nas eleições de 2022, tem que estar aprovado e
sancionado pelo presidente da República até o início de outubro, a um ano da
disputa
2 –
VOLTA DAS COLIGAÇÕES
O
que é: proposta de emenda à Constituição que retoma a
possibilidade de partidos se unirem nas eleições para deputados e vereadores,
prática que vai na contramão das regras que buscam reduzir o número de legendas
no país. Essa PEC também instituía o chamado “distritão”, mas esse ponto foi
rejeitado.
Estágio de tramitação: aprovado na Câmara
Próximos passos: Em tramitação no Senado. Tem que ser
aprovada e promulgada até o início de outubro para valer nas eleições de 2022
3 –
VOTO IMPRESSO
O
que é: proposta de emenda à Constituição que prevê a
impressão do voto dado na urna eletrônica
Estágio de tramitação: arquivado
Votação: derrotada em plenário em 10 de agosto.
Faltaram 79 votos para que a PEC fosse aprovada. Foram 229 a favor do texto,
218 contra e uma abstenção. Eram necessários ao menos 308 votos
4 –
MINIRREFORMA ELEITORAL DO SENADO
O
que é: trata, entre outros, da volta da propaganda
partidária obrigatória no rádio e na TV e de mudança no sistema para restringir
a possibilidade de partidos nanicos conseguirem vagas nos Legislativos (nas
disputas das chamadas “sobras”)
Estágio de tramitação: Parte das sobras foi aprovada
pela Câmara com modificação, então votou para o Senado. Demais pontos continuam
em análise pela Câmara
Próximos passos: Para valer nas eleições de 2022, têm
que estar sancionados até o início de outubro, a um ano da disputa
5 –
FUNDO ELEITORAL
O
que é: previsão de gasto de R$ 5,7 bilhões de dinheiro
público na campanha de 2022
Estágio de tramitação: Aprovado pelo Congresso, foi
vetado pelo presidente Jair Bolsonaro
Próximos passos: independentemente da decisão de Bolsonaro,
valor final só será definido na discussão pelo Congresso do Orçamento-2022, a
partir de setembro. Há tentativa de aprovar valor em torno de R$ 4 bilhões
6 –
FEDERAÇÕES PARTIDÁRIAS
O
que é: permite a partidos se unirem em federação para
escapar da punição da cláusula de desempenho, que retira recursos de siglas com
baixíssima votação nas urnas
Estágio de tramitação: aprovado no dia 12.ago pela
Câmara, foi vetado por Bolsonaro
Próximos passos: Congresso pode derrubar o veto, em
sessão ainda sem data marcada
Danielle Brant/Renato Machado/Ranier Bragon/Folhapress
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