Um ano e meio
após o primeiro caso de Covid-19 ser registrado no país, grande parte dos
brasileiros ainda tem receio de frequentar lugares públicos, segundo
levantamento divulgado pela CNI (Confederação Nacional da Indústria) nesta
sexta-feira (30).
O estudo
aponta que 34% da população sente medo grande ou muito grande de frequentar
bares ou restaurantes. O índice cai para 17% quando a pergunta é sobre
supermercados. Esses números eram de 45% e 26%, respectivamente, em abril.
Os dados foram
coletados pelo Instituto FSB Pesquisa, que entrevistou por telefone 2.000
pessoas de todos os estados e do Distrito Federal entre os dias 12 e 16 de
julho. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, e o intervalo de confiança é
de 95%.
No final de
abril, chegava a quase 10% o percentual de pessoas totalmente vacinadas no
país. Nesta quinta (29), eram 25% aqueles que tomaram a primeira e a segunda
dose.
Além disso,
nos últimos meses, a população começou a sentir os efeitos das imunizações: no
dia 15 de julho, pela primeira vez em oito meses, o Brasil viu os casos de
Covid-19 desacelerarem de forma constante, de acordo com o monitor da
aceleração da Covid, da Folha. A plataforma mede a variação de novos infectados
nos últimos 30 dias.
Esse cenário
contrasta com o de abril, período inicial de comparação da pesquisa da CNI. No
início daquele mês, o Brasil ultrapassou os 4.000 mortos por Covid em um só dia
pela primeira vez na pandemia.
“A preocupação
com a pandemia ainda é grande”, afirma o gerente de Análise Econômica da CNI, Marcelo
Azevedo. Ele diz que os índices têm acompanhado a variação no número de
contágios e mortes e a vacinação. Imunizar a população, portanto, é fundamental
para a retomada a econômica, diz ele, em convergência com o que economistas e
empresários têm defendido nos últimos meses.
“O avanço da
vacinação vai fazer as pessoas se sentirem mais seguras e voltarem aos hábitos
de consumo perdidos”, afirma.
O economista
Marcelo Neri, diretor do FGV Social, lança uma dúvida sobre o retorno desses
costumes. “O comércio eletrônico ganhou com a pandemia e deu um empurrão para
as pessoas não precisarem ir ao shopping. Não só para a compra, mas antes
disso, para a busca, por exemplo”, comenta.
Em 2020, as
vendas do comércio eletrônico cresceram 41%, atingindo um faturamento de R$
87,4 bilhões, de acordo com dados do relatório Webshoppers da Ebit|Nielsen e do
Bexs Banc.
A despeito da
sensação de segurança da população, que melhorou, a percepção dos efeitos da
crise sanitária na economia tem permanecido em patamares altos. Em julho de
2020, auge do pessimismo, eram 89% aqueles que acreditavam terem sido muito
grandes ou grandes os efeitos. Em julho desde ano, 87% tinham a mesma opinião,
uma oscilação dentro da margem de erro da pesquisa.
Ao dividir
esse índice por gênero, percebe-se que as mulheres têm uma percepção mais
pessimista: 70% delas acham que o impacto da crise foi muito grande, frente a
54% dos homens.
“Um dos
estudos que li chama a crise de 2008 de recession [recessão, em inglês],
enquanto denomina a crise gerada pela pandemia de shecession [começando a
palavra com she, ela, em inglês], uma crise delas”, comenta Neri. “Essa
recessão teve um viés contra as mulheres, que desempenham esse papel duplo, de
produtoras e cuidadoras.”
Em 2020, a
crise deixou mais da metade das mulheres fora do mercado de trabalho. A taxa de
participação na força de trabalho ficou em 45,8%, uma queda de 14% em relação a
2019. A evasão escolar é um dos motivos mais citados por especialistas para o
retrocesso, uma vez que o cuidado dos filhos recaiu sobre as mães.
“As mulheres
foram as grandes perdedoras da crise, porque elas tiveram que assumir outras
funções. Os dados refletem a percepção de quem viveu uma situação mais
adversa”, afirma Neri.
Daniela Arcanjo/Folhapress
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