Há 31 anos o
Brasil implementava um marco na proteção dos direitos da criança e do
adolescente: o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Tendo como princípio
fundamental a proteção integral desse público, o marco legal garante direitos
como o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao
lazer, à profissionalização e à proteção ao trabalho, à cultura, à dignidade,
ao respeito, à liberdade e à convivência familiar. E determina que todos devem
zelar por esses direitos: família, sociedade e poder público.
Ao comemorar o
aniversário do estatuto, o professor de educação da Universidade de São Paulo
(USP) e pedagogo Roberto da Silva pontuou as alterações mais significativas no
próprio texto do documento. De acordo com Silva, houve mais de 400 avanços no
ECA nesse período. Segundo ele o Estatuto “Ajudou a criar uma infraestrutura
que não existia; reformulou sistemas de saúde, educação, de trabalho da
polícia”.
O professor
destacou que boa parte dessas mudanças se refere à ampliação dos direitos das
mães dessas crianças e adolescentes, principalmente nos aspectos de
alimentação, saúde e cuidados, além de direitos trabalhistas e previdenciários.
Para essas
alterações contribuíram as atividades do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre
Educação em Regimes de Privação da Liberdade, coordenado por Silva na Faculdade
de Educação da USP. O grupo teve participação ativa na elaboração do Sistema
Nacional de Atendimento Socioeducativo (Sinase) e do Plano Nacional de
Convivência Familiar e Comunitária.
Roberto da
Silva destacou que o plano fechou o ciclo do reordenamento institucional ao
regulamentar a prática do acolhimento. Os gigantescos abrigos onde ficavam mais
de 1,5 mil crianças e jovens foram substituídos por casas pequenas, com
capacidade para cerca de 20 crianças, tornando mais fácil o acompanhamento e a
fiscalização.
Na área da
adoção, foi resolvido um grande problema, que era o lobby de organizações
religiosas que criaram um “mercado internacional de adoção”, citou o professor
da USP. “Nós tínhamos mais adoções internacionais do que adoção nacional, no
Brasil”. Hoje a adoção internacional é tratada somente no âmbito da
excepcionalidade.
No caso da
adoção nacional, Silva considera que o Cadastro Nacional de Adoção, criado pelo
Superior Tribunal de Justiça (STJ), ainda carece de eficácia. Isso ocorre,
conforme explicou, porque alguns juízes ainda acham que a adoção deve ser feita
na comarca e no estado deles, “quando, na verdade, o Cadastro Nacional é para
universalizar a adoção de adotantes e adotandos no país inteiro”.
Roberto da
Silva viveu na rua e em abrigos dos 2 anos aos 18 anos de idade. “Passei pelos
dois Códigos de Menores de 1927 e 1979, durante o cumprimento de penas, em São
Paulo”, narrou. Silva contou que muitos dos meninos que foram criados com ele
no abrigo encontrou dentro da prisão, onde permaneceu por dez anos. Foi ao sair
da cadeia que tomou a decisão de estudar e se formar em professor de educação.
Pandemia
e novos desafios
Segundo o
professor, a pandemia do novo coronavírus trouxe novos desafios para o
cumprimento do ECA. Para ele, se as crianças e adolescentes foram a faixa menos
atingida pela covid-19, recorrendo pouco ao Sistema Único de Saúde (SUS), na
área da educação, houve grandes deficiências. “A escola faz muita falta para eles.
O direito da aprendizagem ficou muito comprometido durante esse período”,
analisou.
Silva
enfatizou que o desafio daqui para a frente é rever “a função social da escola
pública no Brasil”. Segundo ele, durante muitos anos houve um processo de
transferência da responsabilidade da família para a escola e dos pais para os
professores. Neste momento de pandemia, a escola devolveu a responsabilidade
para as famílias e os professores aos pais. Para o professor, o que se viu foi
que famílias e pais não estão suficientemente preparados para acompanhar o
processo de escolarização dos filhos.
Roberto da
Silva afirmou que as famílias perceberam é que a escola ocupava o tempo livre
da criança para eles poderem trabalharem e gerar renda e alimentação. “O que
menos fez falta foi o estudo, foram as lições. Nesse sentido, a escola precisa
se reerguer”.
Para abordar o
tema, Roberto da Silva decidiu organizar um e-book intitulado “ECA 31 Anos –
Nem a Pandemia Nem o Ódio Podem Matar Nossos Sonhos”. O trabalho reúne textos
de 40 alunos da Faculdade de Educação da USP. Silva explicou que esses alunos
nasceram na vigência do ECA e não conhecem grande parte da história de lutas
que levaram à criação do estatuto. “Mas tentaram uma aproximação da parte da
política de implementação dos direitos da criança e do adolescente e acabaram
descobrindo coisas muito interessantes para o educador”.
Na semana que
começa hoje (13) e vai até o dia 17 deste mês, o professor Silva e seus alunos
estarão participando de lives para discutir os textos do livro, que pode ser
encontrado nas lojas de livros digitais. As lives serão realizadas na página da
Faculdade de Educação da USP.
Agência
Brasil
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