Assessores diretos do presidente Jair
Bolsonaro (sem partido) atribuem o pico de rejeição da gestão durante a
pandemia, apontado pelo Datafolha nesta quarta-feira (17), aos recordes diários
de mortes por Covid-19 nos últimos dias no país.
No Palácio do Planalto, um ministro
diz que já esperava por este resultado e que o entendimento é o de que o
momento é de ações práticas para tentar controlar a pandemia.
Um evento que aconteceria na tarde
desta quarta-feira foi cancelado, e o governo informou que o presidente irá ao
Congresso entregar pessoalmente a medida provisória que possibilita o pagamento
de uma nova rodada do auxílio emergencial, que alavancou a popularidade de
Bolsonaro no ano passado.
No Legislativo, questionados sobre o
resultado da pesquisa Datafolha, parlamentares também relataram já esperar a
deterioração política de Bolsonaro diante da condução do enfrentamento à
pandemia pelo governo.
“Vivemos um momento muito delicado,
muito difícil para a vida nacional. Então, é natural que as pessoas reajam com
certa descrença em relação a tudo isso que está acontecendo, não só em relação
ao governo, mas às instituições de um modo geral”, disse o presidente do
Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG).
Um dos principais conselheiros do
presidente no Planalto avaliou à Folha, sob reserva, que o pior momento da
pandemia é também o pior momento do governo e que não há mudanças a curto prazo
a serem feitas para melhorar a imagem de Bolsonaro.
Um ministro disse entender que não é
hora de fazer nenhuma campanha de comunicação, porque, nada que não seja cuidar
da saúde será percebido pela população neste momento.
Ao mesmo tempo em que o país chega a
282.400 óbitos por Covid-19, sendo 2.798 mortes em apenas 24 horas, a pesquisa
Datafolha apontou que 54% dos brasileiros veem a atuação de Jair Bolsonaro no
combante à pandemia e seus efeitos como ruim ou péssima.
O dado foi aferido na mesma semana em
que foi apresentado o quarto ministro da Saúde de seu governo, o cardiologista
Marcelo Queiroga. Na pesquisa passada, realizada em 20 e 21 de janeiro, 48%
reprovavam o trabalho de Bolsonaro na pandemia.
Na rodada atual do Datafolha, o
índice daqueles que acham sua gestão da crise ótima ou boa passou de 26% para
22%, enquanto quem a vê como regular foi de 25% para 24%. Não opinaram 1%.
O instituto ouviu por telefone 2.023
pessoas nos dias 15 e 16 de março. A margem de erro é de dois pontos para mais
ou menos.
A má imagem do presidente, que
dificultou o início do ora lento processo de vacinação, impacta diretamente a
avaliação geral de seu governo. Segundo aferiu o Datafolha, ela segue no pior
nível desde que Bolsonaro assumiu, em 2019.
Reprovam o presidente 44%, uma
oscilação positiva quase saindo do limite da margem de erro ante os 40%
registrados em janeiro. A aprovação e o julgamento como regular seguem
estáveis, de 31% para 30% e de 26% para 24%, respectivamente.
O cenário agora repete o pior já
registrado, em junho do ano passado, embora seja notável a manutenção da base
de apoio do presidente em cerca de um terço da população, apesar da crise.
Nas duas medições seguintes, sob o
impacto do auxílio emergencial, visitas ao Nordeste e o arrefecimento do embate
institucional por parte de Bolsonaro, o presidente viu sua popularidade
crescer.
Desde a semana passada, quando lançaram
o que informalmente foi batizado de “Plano Vacina”, Bolsonaro, ministros e a
família presidencial se empenham na defesa da imunização, contrastando com o
discurso anti-vacina que era adotado até pouco tempo atrás.
Além disso, integrantes do governo
repisam insistentemente balanços de ações feitas pelo Executivo no âmbito da
pandemia.
Logo no início da manhã desta
quarta-feira, Bolsonaro compartilhou em uma rede social um vídeo da Casa Civil
que enumera medidas ao longo de um ano de crise sanitária. “Contra as sujas
narrativas, mais verdades!”, escreveu Bolsonaro junto ao vídeo de 2 minutos e
20 segundos.
“O governo federal continuará a
salvar vidas e preservar empregos com foco na retomada do caminho da
prosperidade. Juntos, venceremos mais este desafio e seguiremos o nosso rumo em
direção ao progresso”, diz a narradora do vídeo.
Antes das 10h, o governo também
informou o cancelamento da cerimônia onde um programa ministerial lançado no
ano passado seria transformado em programa governamental.
Ao contrário do que acontece em
outros Poderes, o governo federal tem insistido em eventos presenciais. Como o
presidente é contrário ao uso de máscara, servidores relatam, sob condição de
anonimato, que se sentem constrangidos de usar o equipamento de proteção durante
o trabalho.
O Palácio do Planalto confirmou na
terça-feira (16) que um servidor da sede do Executivo morreu de Covid-19. De
março do ano passado a fevereiro deste ano, 454 servidores do Planalto foram
infectados pelo novo coronavírus, segundo a Secretaria-Geral da Presidência da
República.
Apesar do cancelamento da cerimônia,
o governo anunciou também que Bolsonaro vai retomar sua agenda de viagens,
interrompida na semana passada.
Na sexta-feira (19), o presidente vai
a Itaguaí (RJ) inaugurar uma linha de produção de torres de transmissão de
energia e entregar os últimos acumuladores à usina nuclear Angra 3.
Nestas viagens, o próprio presidente
divulga em suas mídias sociais situações de aglomeração, apesar do colapso da
rede de saúde em vários estados.
Na terça-feira, a Fiocruz divulgou
boletim que aponta maior o colapso sanitário e hospitalar da história do
Brasil.
O levantamento mostra que das 27
unidades federativas, 24 estados e o Distrito Federal estão com taxas de
ocupação de leitos de UTI Covid-19 para adultos no Sistema Único de Saúde (SUS)
iguais ou superiores a 80%, sendo 15 com taxas iguais ou superiores a 90%.
Diante de todo este contexto, a
reação no Congresso também não foi de surpresa com o impacto do momento na
imagem do chefe do Executivo.
Daniel
Carvalho e Renato Machado/Folhapress
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