Pelo menos 4.352 pessoas diagnosticadas ou com
suspeita de covid-19 aguardavam nessa terça-feira, 9, por um leito de
atendimento em hospitais do País – 2.257 delas estavam na fila da UTI. O dado,
que reforça a noção de descontrole da pandemia, foi obtido pelo Estadão com
base em um levantamento com as secretarias estaduais de Saúde. Na terça, o
Brasil registrou 1.954 mortes pelo novo coronavírus em 24 horas, maior balanço
diário desde o começo da crise sanitária.
Quatorze Estados informaram ter paciente em algum
grau de espera, seis disseram que não têm fila e sete não responderam ou
disseram não ter os dados consolidados de lista de espera. Dezesseis Estados
apresentavam ontem taxa de ocupação de UTIs igual ou superior a 80%.
A situação mais crítica é a do Paraná, Estado que
registra a maior fila, com 1.071 doentes aguardando transferência anteontem –
519 deles por um leito de terapia intensiva. Na sequência estava São Paulo, com
mil pacientes na espera (não foram especificados quantos são por UTI ou por
leitos clínicos).
Os outros Estados da região Sul, que vêm
registrando cenas de colapso desde a semana passada, continuam em situação
crítica. São 388 nomes na lista de espera por UTI em Santa Catarina – que tem a
maior taxa de ocupação do País (99,16%) – e 248 no Rio Grande do Sul. Também em
situação delicada está a Bahia, onde 326 pacientes aguardavam ontem por uma
vaga de UTI (veja quadro nesta página).
Infectologista de dois dos maiores hospitais de
Porto Alegre (um público e outro privado), Alexandre Zavascki conta que os
profissionais estão tendo de utilizar respiradores não ideais para pacientes
com covid diante da falta de equipamentos do tipo. “São respiradores que seriam
adequados para um paciente que está apenas anestesiado durante uma cirurgia.
Não são ventiladores com capacidade plena em todos os parâmetros”, diz o
especialista.
Ele relata ainda que a tão temida escolha de quais
pacientes priorizar em um cenário de colapso já está acontecendo no Rio Grande
do Sul. “A gente vê pacientes graves no leito comum e sabe que não tem vaga.
Temos de escolher quem mandar para a UTI e alguns deles não resistem a essa
espera”, diz.
Zavascki conta que o Hospital de Clínicas de Porto
Alegre, uma das unidades onde ele atua, chegou ao ponto de não ter mais espaço
físico para a colocação de camas. “Abrimos uma sala que era de recuperação
pós-cirúrgica para leitos covid e lotou. Depois, abrimos uma sala maior desse
tipo para covid e também lotou. Agora, abrimos a sala de recuperação
pós-cirúrgica infantil e está indo para o mesmo caminho. Não tem mais para onde
expandir. O próximo passo do colapso é as pessoas morrerem nas ambulâncias ou
em casa”, disse ele.
No Pará, embora a rede pública ainda não tenha
entrado em colapso, os hospitais privados já não têm como aceitar mais doentes,
segundo relato do médico Robson Tadachi, diretor técnico de uma das unidades da
Unimed Belém.
Ele conta que a operadora não encontra leitos
disponíveis nos hospitais da rede credenciada. “Chego a ter 50 pacientes na
espera por dia e todas as unidades que pedimos leitos estão lotadas. É uma
sensação de enxugar gelo porque chegam cada vez mais pacientes”, diz.
Um exemplo da situação dramática pela qual passa o
Brasil ocorreu no fim de semana passado, quando o governo de Mato Grosso
acionou o sinal de alerta. Mesmo com uma fila não tão grande na comparação com
outros Estados – 44 à espera de uma vaga de UTI –, mas com a segunda maior taxa
de ocupação do País (98,96%), a Secretaria de Saúde enviou um pedido de ajuda
para outros Estados.
O secretário checou se alguém tinha condições de
aceitar transferência de pacientes do Estado com covid-19. Com um nível de
ocupação elevado em todo o País, nenhum deles respondeu positivamente.
No sábado, a morte de um enfermeiro de Cuiabá
comoveu os profissionais de saúde do Estado. Ele havia trabalhado por anos, até
se aposentar, no pronto-socorro municipal da cidade e acabou morrendo
justamente pela falta de leito de terapia intensiva.
O momento de expansão desenfreada do vírus
observado em todo o País é agravado pela exaustão dos profissionais de saúde.
“Estamos vivendo um momento de muita piora mesmo e a grande dificuldade é não
ter um auxílio do governo, então não tem como fazer um isolamento efetivo”,
comenta o infectologista Bruno Ishigami, do Hospital Oswaldo Cruz, de Recife. O
Estado tinha ontem 95% de ocupação dos leitos de UTI públicos.
“Isso está nos angustiando. Só escuto meus amigos
falando: ‘velho’, eu não aguento mais, tô cansado. É 2020 se repetindo, estamos
presos no ano passado, só que está pior”, lamenta o médico. “A explosão de
casos ainda não se refletiu muito em aumento de mortes, mas imaginamos que logo
vai acontecer, o que está nos dando muito medo. Se no Rio Grande do Sul a
segunda onda foi muito pior, aqui como vai ser?”
Estadão Conteúdo
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