Tesouras Notícias
sexta-feira, janeiro 25, 2019
Do Folha de São Paulo
Eleito
pela terceira vez consecutiva deputado federal pelo PSOL do Rio de Janeiro,
Jean Wyllys, 44, vai abrir mão do novo mandato. Em entrevista
exclusiva à Folha, o
parlamentar —eleito com 24.295 votos e que está fora do país, de
férias— revelou que não pretende voltar ao Brasil e que vai se dedicar à
carreira acadêmica. O presidente nacional do
PSOL, Juliano Medeiros, confirmou que a vaga de Wyllys deve ser ocupada pelo suplente David Miranda (PSOL-RJ),
que atualmente é vereador no Rio de Janeiro. Desde
o assassinato da sua correligionária Marielle Franco, em março do ano passado,
Wyllys vive sob escolta policial. Com a
intensificação das ameaças de morte, comuns mesmo antes da morte da
vereadora carioca, o deputado tomou a decisão de abandonar a vida pública.
"O [ex-presidente do
Uruguai] Pepe Mujica, quando soube que eu estava ameaçado de morte, falou
para mim: 'Rapaz, se cuide. Os mártires não são heróis'. E é isso: eu não quero
me sacrificar", justifica.
De acordo com Wyllys,
também pesaram em sua resolução de deixar o país as recentes informações de que
familiares de um ex-PM suspeito de chefiar milícia investigada pela morte de Marielle trabalharam
para o senador eleito Flávio Bolsonaro durante seu mandato como deputado
estadual pelo Rio de Janeiro.
"Me apavora saber que
o filho do presidente contratou no seu gabinete a
esposa e a mãe do sicário", afirma Wyllys. "O presidente que sempre
me difamou, que sempre me insultou de maneira aberta, que sempre utilizou de
homofobia contra mim. Esse ambiente não é seguro para mim", acrescenta.
Após
a divulgação de que Wyllys decidiu abrir mão de seu mandato, o vereador
Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), filho de Jair Bolsonaro, escreveu no
Twitter: "Vá com Deus e seja feliz!". O presidente, após dizer
que estava retornando de Davos, na Suíça, ao Brasil, postou em rede social
a mensagem "Grande dia!".
Muitos internautas
interpretaram a mensagem como referência a Wyllys, mas o presidente
negou mais tarde, escrevendo que se referia à missão concluída em
Davos, à volta ao Brasil e à confiança no país indicada pelo
resultado da Bolsa.
O suplente David
Miranda chegou a escrever: "Respeite o Jean, Jair, e segura sua
empolgação. Sai um LGBT mas entra outro, e que vem do Jacarezinho. Outro
que em 2 anos aprovou mais projetos que você em 28. Nos vemos em
Brasília".
Após
a divulgação de que Wyllys decidiu abrir mão de seu mandato, o vereador
Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), filho de Jair Bolsonaro, escreveu no
Twitter: "Vá com Deus e seja feliz!". O presidente, após dizer
que estava retornando de Davos, na Suíça, ao Brasil, postou em rede social
a mensagem "Grande dia!".
Muitos internautas
interpretaram a mensagem como referência a Wyllys, mas o presidente
negou mais tarde, escrevendo que se referia à missão concluída em
Davos, à volta ao Brasil e à confiança no país indicada pelo
resultado da Bolsa.
O suplente David
Miranda chegou a escrever: "Respeite o Jean, Jair, e segura sua
empolgação. Sai um LGBT mas entra outro, e que vem do Jacarezinho. Outro
que em 2 anos aprovou mais projetos que você em 28. Nos vemos em
Brasília".
Primeiro
parlamentar assumidamente gay a encampar a agenda LGBT no Congresso Nacional,
Wyllys se tornou um dos principais alvos de grupos conservadores,
principalmente nas redes sociais. Ele também se diz "quebrado por
dentro" em virtude de fake news disseminadas a seu respeito, mesmo
tendo vencido pelo menos cinco processos por injúria, calúnia e difamação.
"A pena imposta, por
exemplo, ao Alexandre Frota não repara o dano que ele produziu ao atribuir a
mim um elogio da pedofilia. Eu vi minha reputação ser destruída por mentiras e
eu, impotente, sem poder fazer nada. Isso se estendendo à minha família. As
pessoas não têm ideia do que é ser alvo disso", afirmou Wyllys.
Deputado federal eleito
pelo PSL de São Paulo, Frota foi condenado em primeira
instância na Justiça Federal, em dezembro do ano passado, a pagar uma
indenização de R$ 295 mil por postar uma foto de Jean Wyllys acompanhada de uma
declaração falsa: "A pedofilia é uma prática normal em diversas espécies
de animal, anormal é o seu preconceito".
Wyllys se ressente,
sobretudo, da falta de liberdade no Brasil. "Como é que eu vou viver
quatro anos da minha vida dentro de um carro blindado e sob escolta? Quatro
anos da minha vida não podendo frequentar os lugares que eu frequento?",
questiona.
Também avisa que vai se
desconectar das redes sociais temporariamente e que não pretende acompanhar a
repercussão do seu anúncio.
"Essa não foi uma
decisão fácil e implicou em muita dor, pois estou com isso também abrindo mão
da proximidade da minha família, dos meus amigos queridos e das pessoas que
gostam de mim e me queriam por perto", explica.
Sobre o futuro, ele ainda
não tem planos definidos. "Eu acho que vou até dizer que vou para
Cuba", ironiza.
Quando
você decidiu abrir mão do mandato?
Eu já vinha pensando em abrir mão da vida pública desde que passei a viver sob
escolta, quando aconteceu a execução da Marielle. Antes disso, havia ameaças de
morte contra mim e, curiosamente, não havia contra ela. Nunca achei que as
ameaças de morte contra mim pudessem acontecer de fato. Então, nunca solicitei
escolta.
Mas, quando rolou a
execução da Marielle, tive noção da gravidade. Além dessas ameaças de morte que
vêm desses grupos de sicários, de assassinos de aluguel ligados a milícias,
havia uma outra possibilidade: o atentado praticado por pessoas fanáticas
religiosas que acreditavam na difamação sistemática que foi feita contra mim.
Você
chegou a ser agredido?
Além dos xingamentos, tinha gente que me empurrava, mesmo com a presença dos
seguranças ao meu lado. E a coisa foi se agravando por causa da campanha
baseada em fake news. Eu não era candidato à Presidência da República, mas
a principal fake news me envolvia —o kit gay. Foi uma fake
news produzida em 2011 e atribuída a mim.
No dia em que ocorreu o
eclipse lunar [27/07], aquele em que a Lua ficou vermelha, eu não podia descer
porque eu estava ameaçado. Só podia descer com a escolta, e a escolta não
estava lá. Uma coisa simples, um fenômeno no céu que eu não podia ver.
Nesse dia, tive uma crise
de choro e falei: "Eu vou largar tudo". Não posso estar no meu país e
não poder descer para ver um eclipse lunar sem ser insultado por pessoas que
acham que sou pedófilo, que quero homossexualizar crianças.
Você
cogitou a ideia de não se candidatar?
Não cheguei a pensar nisso porque estava no fluxo do trabalho. E não era uma
questão só minha, envolvia o partido. Mas, quando já era candidato, pensei em
abandonar a candidatura. Aí, durante a eleição aconteceu o atentado contra o presidente,
esse atentado que está por ser explicado ainda, e isso atiçou ainda mais a
violência contra mim nos espaços públicos.
A Comissão Interamericana
de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA) emitiu uma
medida cautelar logo depois da eleição. O documento é claríssimo: é baseado em
todas as denúncias que nós fizemos à Polícia Federal, no fato de que a Polícia
Federal não avançou nas investigações sobre as ameaças contra mim. No fato de
que a proteção era pífia.
A OEA deu um prazo para o
Estado responder quais eram as providências que estava tomando em relação à
minha proteção. A resposta foi a mais absurda possível.
O Estado não reconheceu que
havia uma violência homofóbica no Brasil. Isso com quatro pessoas LGBTs ou mais
tendo sido mortas durante o processo eleitoral, com o Moa do Katendê tendo sido assassinado na
Bahia por causa do ambiente de violência política que se estabeleceu no Brasil.
A resposta do Estado à OEA
foi dizer que eu estava seguro, tanto é que eu participei das eleições. É uma
piada. Eu não via a hora de sair de férias porque queria sair do país. Porque
estava me sentindo inseguro, mesmo com a escolta me acompanhando. Quando saí de
férias, experimentei de novo uma vida em liberdade. Aí, tomei a decisão de não
voltar.
Você
se firmou como um dos principais adversários de Jair Bolsonaro na Câmara dos
Deputados, a ponto de ter
cuspido na cara dele durante a votação do impeachment da
ex-presidente Dilma Rousseff. A eleição de Bolsonaro contribuiu para sua
decisão de não assumir o novo mandato?
Não foi a eleição dele em si. Foi o nível de violência que aumentou após a
eleição dele. Para se ter uma ideia, uma travesti teve o coração arrancado
agora há pouco. E o cara [o assassino] botou uma imagem de uma santa no lugar.
Numa única semana, três
casais de lésbicas foram atacados. Um deles foi executado. A violência contra
LGBTs no Brasil tem crescido assustadoramente.
O [ex-presidente do
Uruguai] Pepe Mujica, quando soube que eu estava ameaçado de morte, falou
para mim: "Rapaz, se cuide. Os mártires não são heróis". E é isso: eu
não quero me sacrificar.
A violência contra mim foi
banalizada de tal maneira que Marilia Castro Neves, desembargadora do Rio de
Janeiro, sugeriu a minha execução num grupo de
magistrados no Facebook. Ela disse que era a favor de uma execução profilática,
mas que eu não valeria a bala que me mataria e o pano que limparia a lambança.
Na sequência, um dos
magistrados falou que eu gostaria de ser executado de costas. E ela respondeu:
"Não, porque a bala é fina".
Veja a violência com
homofobia dita por uma desembargadora do Rio de Janeiro. Como é que posso
imaginar que vou estar seguro neste estado que eu represento, pelo qual me
elegi?
Você
é o principal porta-voz do movimento LGBT no Congresso. Num momento em que o
debate em torno dessas pautas tende a se acirrar, como você se sente abrindo
mão do mandato?
Para o futuro dessa causa, eu preciso estar vivo. Eu não quero ser mártir. Eu
quero viver. Acho que essa violência política que se instalou no nosso país vai
passar. Pode ser que no futuro eu retome isso, mas eu nem penso em retomar
porque há tantas maneiras de lutar por essa causa que não passam pelo espaço da
institucionalidade.
Você
foi um dos primeiros políticos a usar intensamente a internet. Como você
enxerga a atual atmosfera das redes sociais?
A diferença é que eu usava a internet para dar transparência ao meu trabalho,
para ampliar os canais de comunicação e de democracia direta com a população.
Nunca usei a internet para difamar ninguém, para caluniar ninguém.
Essa é a diferença para
essas novas estrelas das redes sociais. Elas usam as redes sociais para a
divulgação de fake news.
Há uma bancada inteira
eleita com base em mentiras, inclusive contra mim. Eu venci processos contra
umas cinco pessoas que me caluniaram. Só que esses processos não reparam o dano
que isso causou na minha vida e na vida da minha família.
A pena imposta, por
exemplo, ao Alexandre Frota não repara o dano que ele produziu ao atribuir a
mim um elogio da pedofilia. Eu vi minha reputação ser destruída por mentiras e
eu, impotente, sem poder fazer nada. Isso se estendendo à minha família. As
pessoas não têm ideia do que é ser alvo disso.
Quais
são seus planos? Para onde você vai?
Eu não vou falar onde estou. Eu acho que vou até dizer que vou para Cuba
[ironiza]. Eu sou professor, dou aula. Eu escrevo, tenho um livro para
terminar. Eu vou recompor minha vida. Eu vou estudar, quero fazer um doutorado.
Vou escolher um lugar onde
eu possa fazer meu doutorado, que eu não pude fazer durante esses anos. Vou
tocar minha vida dessa outra maneira.
Quando eu estiver refeito,
quando eu achar que é a hora, eu volto, não necessariamente para esse lugar da
representação política parlamentar, mas para a defesa da causa —isso eu nunca
vou deixar de fazer.
Qual
foi a reação do seu partido, o PSOL?
O partido reconhece que de fato eu sou um alvo e me deu apoio na minha decisão
de não voltar. Reconhece que são graves as ameaças contra mim, que eu corro
risco, que há uma vulnerabilidade maior pelo fato de eu ser identificado com a
causa LGBT. Lamenta, claro, mas apoia minha decisão.
Você
acha que a defesa muito enfática que você fez do mandato de Dilma Rousseff, e
sobretudo do ex-presidente Lula, contribuiu para que esse clima de animosidade
contra você crescesse?
Acho que sim. Acho que tudo acabou se misturando e eu fui convertido em um
inimigo público para essas pessoas. Havia quem fizesse ameaça por conta desse
ódio antipetista e havia quem quisesse me calar de fato. Tudo isso se misturou.
O PSOL reconhece essa
vulnerabilidade. Mesmo os meus eleitores compreenderão isso. Milhares de
pessoas não foram às ruas para protestar contra a execução da Marielle Franco à
toa. Elas foram porque ficaram indignadas com a execução de uma mulher honesta,
digna, uma parlamentar com um futuro brilhante que foi executada por uma rajada
de metralhadora, parte dos tiros na cara dela.
Eu não quero ter esse fim.
E para não ter esse fim eu não volto e não vou assumir o mandato. Não estou
renunciando a nada porque sequer investi no mandato.
Você
se arrepende de algo nesses oito anos como deputado federal?
Não me arrependo de nada. Eu acho que dei uma bela contribuição, que pode não
ser reconhecida agora por causa das fake news, dos ataques e das mentiras, mas
o espelho retrovisor pode mostrar de maneira clara como eu estive do lado certo
o tempo inteiro.
A conquista do casamento
civil igualitário foi uma conquista que dependeu muito da minha luta. Tenho
muito orgulho do que fiz. Durante esses oito anos, enfrentei tudo isso com
muita dignidade. Mas sou humano e cheguei ao meu limite.
E me apavora saber que o
filho do presidente contratou no seu gabinete a esposa e a mãe do sicário
[ex-PM suspeito de chefiar milícia que é investigada no caso Marielle]. O
presidente que sempre me difamou, que sempre me insultou de maneira aberta, que
sempre utilizou de homofobia contra mim. Esse ambiente não é seguro para mim.
Qual
é sua expectativa para o governo
Jair Bolsonaro e qual deve ser o papel da oposição nos próximos
quatro anos?
Não tenho nenhuma expectativa positiva em relação a esse governo. O nível de
violência contra as minorias aumentou drasticamente desde que esse sujeito foi
eleito. As suas relações pouco republicanas já vieram à tona —dele e de seus
filhos. Então, não tenho boas expectativas.
A política econômica também
não desenha um bom horizonte. O choque do neoliberalismo em um país desigual
como o nosso não será bom. E acho que o Ministro da Justiça [Sergio Moro] deve
no mínimo prestar algum tipo de satisfação à população. Então, minhas
perspectivas não são as melhores.
E acho que a saída para as
esquerdas é a união. Mas, sinceramente, eu não quero mais opinar sobre isso
porque estou abrindo mão do mandato justamente para não ter mais que opinar
neste momento sobre essa questão. Quero cuidar de mim e me manter vivo.
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