Tesouras Notícias
quarta-feira, janeiro 02, 2019
Profissionais contestam 'confinamento' e
acesso restrito. "Impensável e inaceitável", diz Miriam Leitão.
"Remete a imagens do passado", relata Kennedy Alencar. Outros
denunciam privilégios a 'amigos'
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| Jornalistas são obrigados a ficar horas à espera, sem permissão de se deslocar |
"Hoje,
há nas avenidas de Brasília uma ostentação militar inadequada numa democracia.
Esse rigor remete a imagens do passado, imagens sombrias de 1964", descreveu
em seu blog o jornalista Kennedy Alencar, da CBN, um dos vários a
criticar o esquema de segurança montado para a posse de Jair Bolsonaro (PSL) na
Presidência da República. "É injustificável o rigor na segurança na posse
presidencial de Jair Bolsonaro, especialmente no tratamento destinado à
imprensa. Não há razão plausível para a montagem de um esquema de segurança
inédito em posses presidenciais no Brasil."
Quem também lamentou o
aparato foi o governador reeleito do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB).
"A lógica do 'conflito pelo conflito', como instrumento ideológico
para o exercício do poder, produz hoje suas primeiras vítimas em Brasília: a
liberdade de imprensa e o exercício digno do trabalho dos jornalistas",
escreveu em rede social.
Miriam Leitão, de O Globo, também criticou.
"A necessidade real de segurança do presidente eleito está sendo usada
como pretexto para restringir o trabalho da imprensa. É claro que a segurança
do presidente eleito, Jair Bolsonaro, e dos chefes de Estado que estão entre
nós exige a imposição de regras, mas o que está acontecendo com os jornalistas
é impensável e inaceitável", afirmou. "Eles só podem ir e voltar
para um ponto específico e com o transporte do governo. Mas assim: têm que
chegar oito ou nove horas antes da parte do evento que cobrirá, só poderá ficar
num mesmo cercado, sob pena de ser retirado do local e responder
processo", relatou.
O título de coluna de
Mônica Bergamo, no jornal Folha
de S.Paulo, ajuda a entender o clima: "Um dia de
cão".
"Foi, de fato, algo
jamais visto depois da redemocratização do país, em que a estreia de um novo
governo eleito era sempre uma festa acompanhada de perto, e com quase
total liberdade de locomoção, pelos profissionais da imprensa", comentou a
repórter.
"Os organizadores da
cerimônia também distribuíram orientações por escrito à imprensa: os
jornalistas credenciados deveriam chegar ao CCBB (Centro Cultural do Banco do
Brasil), no dia 1º, às 7 horas da manhã.
Como é que é?
Era isso mesmo: embora a
posse no Congresso estivesse marcada para as 15 horas, os jornalistas teriam
que se concentrar desde cedo, embarcar nos ônibus às 8 horas, chegar no
Congresso pouco depois e esperar, sem fazer nada, por mais de seis horas, para
ver Bolsonaro entrar no parlamento.
Era preciso levar lanche
pois não haveria comida. Tudo precisava ser embalado em sacos de plástico
transparente", relatou ainda Mônica Bergamo.
Autoritarismo
"São autoritárias,
antidemocráticas e mesquinhas as restrições impostas ao livre trabalho dos
jornalistas profissionais na posse de Bolsonaro. Quebram normas de civilidade e
respeito à liberdade de expressão seguidas, no mínimo, desde a posse de
Collor", escreveu Diego Escosteguy. "Goste-se ou não do trabalho da
imprensa, ou de um ou outro veículo, todos têm o direito de cobrir a posse e de
serem tratados corretamente. Não é algo opcional, uma concessão de um
governante. É uma obrigação constitucional", observou.
Repórter do Correio Braziliense,
Vicente Nunes também protestou. "Quando chegaram aos 'chiqueiros' nos
quais foram confinados, jornalistas foram avisados: não pulem as cordas, se
pularem, levam tiro. A que ponto chegamos. E tem gente que defende esse tipo de
tratamento autoritário". Um pouco depois, acrescentou: "Agora,
assessoria do Itamaraty diz que jornalistas confinados, quando forem levados
para o 'chiqueirinho', poderão gritar para as autoridades a fim de chamá-las
para entrevistas. Se alguém quiser falar, beleza. Se não, xô notícia."
Ainda segundo Nunes, jornalistas
da França e da China se "rebelaram", abandonando a sala para onde
foram levados no Itamaraty. "Disseram que não aceitariam ficar em cárcere
privado até às 17h, quando seriam liberados para fazer registros da posse de
Bolsonaro. Essa rebelião deveria ser geral."
Ele também denunciou
possíveis privilégios na cobertura. "Incrível, enquanto a imprensa séria
está confinada em 'chiqueiros', como chamam os assessores de Bolsonaro,
'comunicadores amigos' têm trânsito livre por toda a Esplanada. Isso está mais
para Coreia do Norte do que para um país democrático."
A repórter Amanda Audi,
do The Intercept Brasil,
fez um relato sobre as condições impostas ao profissionais da imprensa.
"Mais de cinco de horas de espera assim: sem cadeira, sem estrutura, sem
poder sair, sem nada acontecer", escreveu, por volta das 13h30, publicando
uma foto de um grupo de jornalistas.
O editor-executivo do site,
Leandro Demori, foi bloqueado pelo perfil do presidente eleito no Twitter.
"Se é o canal de conversa com a população, onde só ali, ele está dizendo,
é o lugar em que tem ‘a verdade’, você não pode bloquear nenhum cidadão
brasileiro", contestou, em
entrevista ao portal Sul21.
"Essa é a 1ª posse em
que jornalistas são proibidos de transitar entre o Palácio, Congresso e
Itamaraty – quem vê a diplomação no plenário não pode ver a passagem da
faixa", observou a professora e articulista Carol Pires. "Dentro dos
prédios também foram criados setores- portaria, salão ou plenário. Ninguém vê o
cenário completo."
Rede Brasil Atual
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